Ressaca

24jun15

Play. Ângela Rorô cantando Mares da Espanha. E eu me imaginava andando pelo Leblon às seis da manhã. Nem se eu me cegasse pra ver o que é bom. Por trás da canção, surge o barulho das ondas estrondando as pedras; parte-se já, de um engano: acredita-se que a água realiza apenas um trabalho de conveniência. Os bares do Leblon já fecham suas portas atrás de mim, garçons mal humorados puxam a água com rodos. Por trás deles, cadeiras cuidadosamente empilhadas sobre as mesas. É Inverno e inevitavelmente o casaco foi esquecido atrás da porta. O mar, paradoxalmente, solta no ar uma brisa quente, e nos desenhos daquela espuma branca que avança lentamente pela areia é quase possível ouvir sua respiração ofegante, de quem ao invés de buscar um acalanto, expande-se e expande-se.

Houveram tempos de alegrias passadas, mas no fugaz momento em que sou consolado pela brisa quente do mar, estou convicto de estar comigo só, um vetor que desanda pela madrugada. Sento no meio-fio e dianteira no horizonte em direção aos Dois Irmãos. Fecho os olhos; impaciência: aguardo ouvir o ronco do motor de um ônibus que me levará pra casa. Que caminhará quase desgovernado, desviando das pedras do caminho como num jogo de videogame. Mas insistentemente é o mar que me vem, que bate contra as pedras. E, o quanto mais lhe nego o olhar, mais ele parece estrondar as suas ondas, mais elas avançam e resfriam a areia até tocar meu pé. E me contamina com esse gosto de sal. No Rio de Janeiro o gosto de sal nunca deixa de ser um pouco familiar.

Havia os bares cheios de olhos cruzados, os silêncios estranhamente condescendentes; Os apelidos constrangedores para o garçom, condenáveis moralmente, é claro, mas que criavam uma espécie de pacto entre nós. São imagens demasiado abstratas, eu sei, mas é justo porque o som do mar tem esse poder de parecer uníssono. Não estamos num paraíso idílico onde a água escorre e se adapta e corre por entre as pedras, ao contrario, imagine colocar uma quantidade dela o suficiente para que crie uma sombra negra no horizonte. Tudo que não alcanço com o olhar está dentro de mim. A maior das pedras que resiste é incapaz de me oferecer uma experiência tão concreta.

A guinada repentina na curva, e parece verdadeiramente que vou transbordar como um daqueles aquários de criança, que o gato puxa para alcançar o peixe. Sim, eu sou o peixe dentro do aquário. Meu cérebro afogado me dá algumas pontadas de dor. E os músculos das pernas e das costas parecem se reter, se acossar dentro dos eixos. Sempre soube que teria a labirintite de meu avô. Pode ser só que eu esteja adormecendo lentamente, pode ser que a descida do viaduto em alta velocidade seja só mais uma lembrança vaga. Pode ser, ainda – destino trágico – que o vidro entorne – ele não quebraria pois isso seria demasiado trágico – e eu solte guinchos inaudíveis, falecendo no chão metálico do 434. Causa mortis: Apnéia.

Porém, mergulhamos, porém, a concretude, seja ela qual for, transporta-se para os vãos da memória. No rio de janeiro o mar é onipresente, ocupa todos os não-lugares, os que desaparecem no encontro com o olhar. Por isso, é necessário sempre respirar fundo sempre que subir escadas. Recomendo que se sincronize cinco degraus com uma respiração profunda. Evita o vômito e diminui a incidência de tremores nervosos.

Por isso também, ao chegar em casa, duas viradas na chave, e ainda de mochila nas costas, ainda pronto pra partir, realizo o pequeno ritual. Tomo dois copos d’agua, saúdo o primeiro no ar, e em seguida, de frente para a posição anterior, saúdo novamente. Com a esperança de que, daqui há algum tempo um outro alguém venha e rememore e sincronize esses tempos, e o brinde ocorra justo enquanto toca loucura é loucura / não me compreenda / eu amei demais.

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